A dois dias do jogo mais importante da nossa história, nada melhor que recordar a nossa única vitória fora de portas em competições europeias… nada melhor do que beber um pouco da inspiração destes homens que num dia quente de Setembro de 2005 foram heróis, para, posteriormente em Maio nos darem a dor mais profunda que qualquer Vitoriano sentiu, com o peso da descida…
Mas adiante que este relato pretende ser inspirador e não desmoralizante…pretende servir de rastilho para o nosso Centro Histórico sentir o que sentiu naquele fim de tarde daquela Quinta-feira, dia 29… pretende iluminar os nossos heróis…
Antes de mais relembremos o primeiro dos pontos de contacto entre esse dia 29 e a próxima Quarta-feira 27 de Agosto de 2008. A transmissão televisiva, como hoje, era incerta… ninguém sabia como podia ver o Vitória europeu de regresso, após a eliminação de 1998 aos pés do Celtic de Glasgow. A RTP mais uma vez fazia do serviço público um mero conceito – serviço público é transmitir um dos três do costume contra uma equipa da VIII divisão de Malta – e não transmitia o jogo…era definitivo…
Desespero em Guimarães… mas por vezes há soluções que do nada surgem e esta tornou-se inesquecível para todos…
A meio da tarde surge a notícia: vamos todos poder ver o nosso Vitória…e em ecran gigante…pois na Praça mais bonita do mundo, a Praça de Santiago, está a ser colocado um monitor enorme e um satélite de modo a podermos acompanhar as incidências da partida via um canal polaco…já que de Portugal só interessam os habituais, sendo os demais paisagem e só existindo para a imprensa de modo ao campeonato ter dezasseis clubes, e mais nada…
Alegria… o Vitória mesmo à distância iria ter apoio…e será que o grito de todos conseguiria chegar à Polónia? A resposta será dada neste texto, mas mais à frente…
O início do embate aproxima-se… recebem-se as primeiras imagens da Polón
ia…e a Praça vai enchendo… parece que o D. Afonso Henriques mudou de local, tal a quantidade de camisolas do Rei vestidas, cachecós e bandeiras brancas que se vêm esvoaçando orgulhosos. Entre todos, confiança…também não era para menos, pois havíamos vencido em Guimarães por três bolas a zero…e logo ao campeão polaco…
E além do mais este jogo podia servir de lenitivo para um péssimo início de época e que augurava o que posteriormente iria acontecer aos então comandados por Jaime Pacheco, regressado ao banco do Rei -os regressos em Guimarães nunca tiverao êxito… olhem Marinho Peres, Quinito e para os mais antigos Jorge Vieira… todos com um óptimo trabalho na sua primeira passagem pelo Berço e pais de desastres no regresso… Guimarães não vive, definitivamente, do mito Sebastianista!!
Início do jogo pelas 19h45m com a Praça cheia…cheia como um ovo e com os altifalantes instalados estrategicamente a debitarem os acordes desse hino lindo…que é o hino do nosso Vitória… parecia mesmo o Afonso Henriques…
O Wisla lança-se avidamente na tentativa de recuperação do resultado… Mauro Cantoro, Pawel Brozek, Radoslaw Sobolewski, Jean Paulista e os demais mostram que não estão para desistir e pressionam muito o último reduto vitoriano…rematam de longe…tentam triangulações… Os nervos aumentam em Guimarães, mas ao mesmo tempo a confiança vai aumentando com o decorrer dos minutos, pois Márcio Paiva, Mário Sérgio, Cléber, Dragoner e Rogério Matias – os elementos do último reduto – mostram-se tranquilos… uma tranquilidade surpreendente para quem tantos erros cometia na Liga nacional… os que naquele dia alinhavam de preto, por imposições uefeiras, mostram-se senhores do jogo… inteligentes e seguros na sua abordagem…
Intervalo… quarenta e cinco minutos já estão… está bem pertinho a entrada nos grupos da UEFA.. mas o Wisla vai dar tudo…tem de dar tudo e na Praça os vitorianos são unânimes…há que sofrer e saber sofrer…
Segunda parte de sofrimento… as constanstes investidas da equipa da terra onde nasceu Karol Wojtyla – João Paulo II, que era indefectível do clube rival do Wisla, o Krakow FC – são anuladas com classe pela nossa defesa, bem ajudada pelos nossos trincos Fávio Meireles – que grande jogo, meu Deus… – e esse portento dinamarquês que deixou saudades em Guimarães pela sua entrega e atitude, de nome Sebastian Svard.
O tempo passa…o Vitória parece cada vez melhor… o mago tunisino, Selim Benachour, que na primeira mão havia feito o seu primeiro desafio com a camisola do Rei e logo levantado o estádio com um golo do meio da rua, pega cada vez mais no jogo…o polaco Marek Saganowski, o nosso “Sagan” tem cada vez mais bolas jogáveis… e é numa dessas a meio da segunda parte que na grande área descaído para a esquerda senta dois polacos, flectindo para o centro e em arco bate o guarda redes…
GGOOOLLLOOO do nosso Vitória, num grito que certamente se ouviu no leste europeu…Praça de Santiago e Oilveira em ebulição…. abraços imensos… altifalantes em violentos e ao mesmo tempo doces decibéis… logo Sagan, o polaco que nunca no seu país Natal havia marcado um golo ao Wisla, a criar uma obra prima inesquecível..um golo de compêndio…digno do melhor avançado que passou no Vitória depois do mítico Paulinho Cascavel e que não merecia ter figurado nesta equipa que posteriormente desceu de divisão…
Agora o tempo passa, mas os espíritos já repousam…o tempo passa e a eliminatória é nossa…está ganha… e o mesmo é confirmado pelo apito final do russo Gonev… o Vitória vai pela primeira vez na sua história à fase dos grupos da UEFA, onde haveria de encontrar em casa o Bolton e o Besiktas e fora o Zenith e o Sevilla…
Loucura na Praça…abraços…beijos… o hino uma vez mais…projectos para ir receber os heróis ao aeroporto…uma alegria imensa… a primeira vitória fora em competições europeias…
Que a próxima quarta feira dia 27 seja assim…que a felicidade se repita… mas que cada um de nós possa ver o embate onde desejar… em grupo, em casa, na rua, mas que seja transmitido pela RTP… e que seja a segunda vitória fora em competições europeias…
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