
É com gosto que, passados quase cinco meses desde a última crónica, regresso a este espaço para partilhar com os leitores aquilo que me vai na alma, no que à minha paixão futebolística de sempre concerne, o nosso mais que amado Vitória Sport Clube.
Recordo-me agora, com uma certa angústia, dos acontecimentos que me levaram a “desistir” de comentar a ponta final da prestação Vitoriana na edição anterior da Liga Sagres. Numa época em que se perspectivavam os mais altos vôos para o nosso Clube do coração, vimos as nossas legítimas expectativas de crescimento e de grandeza goradas, adiadas por mais algum tempo, vá-se lá saber quanto! Nessa altura, depois de tanto idealizar, foi a massa associativa Vitoriana confrontada com um “lusco-fusco” de época assombrado pelos nada mais que medianos resultados desportivos e pela continuação de um certo autismo por parte da direcção no que diz respeito à política de gestão dos recursos, capitais e humanos, do nosso clube. O desenrolar da segunda metade da época passada foi, em quase todos os capítulos, a confirmação de que seria ainda preciso galgar um longo e penoso caminho para que a ambição dos ditos gestores do nosso amado Vitória fosse condizente com a crescente mas legítima ambição de quem todos os anos sacrifica parte dos seus rendimentos para a maior causa comum da generalidade dos Vimaranenses. A mediocridade que corresponde à prestação na passada edição da Liga é irrefutavelmente atestada pelas contas finais do campeonato. Depois de todos os comentários e de toda uma retórica argumentativa em que espelhei livremente a minha frustração pessoal por não ver certos objectivos cumpridos, achei que, face á situação que teimava em persistir, nada mais haveria a dizer em relação àquilo que acabou por se revelar uma desilusão para todos os Vitorianos. Restar-me-ia esperar pelo início dos trabalhos da nova época e aguardar por novos objectivos e outros protagonistas que pudessem lutar por atingi-los.
Moral da História : um saldo final negativo em matérias de golos (32 tentos marcados contra 36 sofridos) e em resultados finais (em 30 jogos, o Vitória ganhou 10, empatou 8 e perdeu 12) levou o Vitória a ocupar um modesto oitavo lugar na tabela, parco para uma equipa que supostamente “debitava” ambição e cujos sócios, seu verdadeiro capital humano, acalentavam com esperança justificada a consolidação de um estatuto europeu entretanto perdido.
Na época passada, o Vitória nada mais foi do que o “espelho” da competição medíocre que disputa, um campeonato onde quem perde mais do que ganha consegue manter um estatuto de mediania. A lição que Emílio Macedo e seus pares (mesmo os entretanto desavindos) devem retirar do exercício passado é a de que nada se governa sozinho, sem rumo traçado e sem orientações a seguir. Os ilustres directores do nosso clube foram ingenuamente levados a acreditar (não sei se por força de um qualquer protocolo) que não precisariam de grande esforço ou investimento para gerir os destinos de um clube que diariamente mexe com o coração de 32.000 pessoas que pagam para poder celebrar um golo ou de cerca de 150.000 (dizem eles) que, mesmo não pagando, vã acompanhando semanalmente a prestação da equipa e sofrendo “aos pouquinhos” por esta não lhes dar um título ou uma taça, por pequena que seja, para celebrar. Resta-nos esperar que tenham aprendido algo com a lição e que sejam este ano capazes de traçar um rumo diferente para as coisas. Caso tal não se vislumbre, teremos oportunidade de, quando chamados às urnas, rectificar as escolhas do passado e dar a nota final a este elenco que, em três anos, foi capaz do melhor e do pior. Mas de matérias e polémicas directivas falarei mais adiante…
Além de todas as polémicas e escândalos protagonizados por pseudo-dirigentes que parasitam o futebol de norte a sul, este é um desporto que, visto na sua essência, se resume à disposição técnico-táctica de duas equipas de onze homens orientadas por um técnico, que procuram articular-se no domínio de uma bola de forma mais eficaz que o respectivo adversário, sempre com o objectivo de marcar mais um golo do que este, ou, pelo menos, assim deveria ser. Sem mais rodeios ou “rodriguinhos” à volta desta questão, o futebol vive dos que o praticam, dos jogadores, sendo que estes deveriam ser os seus principais protagonistas.
Com o início de cada temporada, invariavelmente surgem caras novas, mais ou menos conhecidas, com o objectivo de colmatar lacunas e reforçar uma equipa com vista a atingir um certo e determinado objectivo, por norma, superior aos das épocas anteriores. Como não poderia deixar de ser, o Vitória não foi excepção e, num ano em que a equipa perde o “Timoneiro Cajuda”, são muitas as caras novas que se apresentaram no Complexo Desportivo para integrar a equipa Vitoriana e assim, supostamente, ajudar ao engrandecimento do clube.
Não demorou muito para que o sucessor de Cajuda fosse conhecido. Desde o dia da tal reunião que descambou em despedimento que na imprensa vinha sendo veiculado o nome de Nelo Vingada como a nova escolha para assumir a chefia técnica do plantel profissional do Vitória. Nesta sucessão, há a registar um facto curioso: Nelo Vingada chega a Guimarães proveniente do Irão, via Egipto, local de onde embarcou Cajuda a caminho de Portugal. Ambos têm passagens pelo comando técnico do Zamalek, eterno rival do Al-Ahly, que dias antes do Vitória, tinha também abordado o técnico que hoje comanda os destinos da turma Vimaranense. No entanto, e apesar de terem passado pelo futebol egípcio, os perfis destes dois homens são mais marcados por diferenças do que por quaisquer semelhanças que possam existir. É caso para dizer que, ao existirem coincidências entre ambos, as mesmas ficam por aqui.
Enquanto Manuel Cajuda se perfila como um comunicador nato, capaz de emocionar os seus ouvintes com lampejos de romantismo que parecem retirados do Lirismo Camoniano, Nelo Vingada prima por ser um académico das bola, verbalmente muito prudente e bastante pragmático. Pelo que me é dado a perceber, trata-se de alguém que pensa mais em futebol do que aquilo que fala, procurando ligar o seu nome e imagem mais à gestão técnica da equipa do que a qualquer política ou postura adoptada pelas direcções dos clubes onde trabalha. Embora tenha estado afastado do futebol Luso nos últimos anos, a sua passagem pelo Belenenses, Académica, Marítimo e Benfica enquanto adjunto atestam o seu conhecimento do futebol nacional. O trabalho por si desenvolvido ao Serviço da Selecção Nacional acaba também por ligar este técnico a uma componente formativa, facto que também parece ter pesado na sua escolha para Treinador do Vitória. Tacticamente falando, Vingada parece ser também um pouco mais evoluído do que Cajuda, que parecia “preso” a um modelo táctico que teimava em transpor para o relvado e cujas deficiências e ineficácia estavam já à vista de todos. Neste capítulo, o novo responsável técnico Vitoriano já demonstrou, ao longo destas quatro jornadas iniciais, ser capaz de adaptar o esquema táctico da equipa consoante o adversário que tem pela frente, enquanto Cajuda parecia colocar sempre o mesmo onze em campo, independentemente de jogar contra o Benfica ou o Trofense. Vingada aparenta ser um homem menos agarrado a preconceitos, optando por, para já, adaptar o esquema táctico da equipa consoante o adversário que defronta. É certo que a maioria dos adeptos desconfiará que o treinador ainda não definiu o esquema táctico base da equipa, o que até certo ponto é verdade.
No primeiro encontro, em Setúbal, o enfadonho futebol que se praticou é típico destes confrontos de início de época. Mesmo contra uma equipa manifestamente mais fraca do que a nossa, notou-se que o Vitória acusou a pressão de estar a realizar o primeiro jogo “a doer” contra um adversário tradicionalmente mais difícil e que, nesse jogo, fez questão de jogar com onze jogadores atrás da linha da bola. No final, o empate trouxe um certo travo amargo á boca da generalidade dos Vitorianos não só pelo nulo verificado, mas pela mísera qualidade da exibição protagonizada pelas duas equipas. No entanto, gosto de pensar que, normalmente, uma equipa só joga aquilo que a outra deixa jogar.
No confronto caseiro com o Benfica, as coisas mudaram radicalmente de figura. Contra um adversário mais forte e poderoso, que joga um futebol mais aberto e apoiado, a equipa da casa conseguiu também impôr o seu próprio ritmo, levando por várias vezes o perigo à baliza defendida pelo homem de Delães. Se o resultado final corresponde à primeira derrota desta edição da liga, tal aconteceu não devido à falta de qualidade ou rigor táctico da equipa, mas devido à falta de eficácia demonstrada pelos nossos artilheiros, associada também a uma certa falta de sorte neste capítulo. O “retornado” Targino teve por duas vezes o golo no pé, sendo certo que apenas não atingiu as redes adversárias por falta de sorte e também devido a uma certa falta de maturidade e frieza no momento da verdade. O golo do Benfica surge ao cair do pano, premiando injustamente a equipa que já parecia mais habituada à ideia de que iria sair de casa alheia com um pontinho na mala.
Em Paços de Ferreira, para não fugir à regra, ficou mais uma vez bem demonstrado que qualquer equipa da Liga se vê “grega” para fazer seja o que for quando defronta os Castores. Já não é de agora que o Paços é uma equipa matreira, que joga num campo pequeno e de terreno bastante irregular. Desde que me lembro de ver futebol, os desafios contra o Paços de Ferreira sempre foram complicados. Pode não ser uma equipa de referência, mas a tenacidade com que defendem e embrulham o jogo, aliadas à capacidade física da equipa, sempre em alta, faz com que qualquer adversário, por mais argumentos que tenha na frente, perca o couro e o cabelo para marcar um mísero golo.
O apronto caseiro contra a Naval, adversário notoriamente mais fraco e debilitado, terá servido para aumentar o nível de confiança de uma equipa que, não sendo má, evidencia ainda alguma falta de articulação e clarividência. Contudo, a equipa mostrou mais alguma maturidade e fluidez, sendo vários os jogadores em bom plano e merecedores de louvor. A equipa terá ganho, com a chegada de Lazaretti, um central forte, voluntarioso e com faro de golo, que faz esquecer as amarguras de um passado recente em que ainda estávamos nitidamente órfãos de Geromel. Targino voltou a estar em bom plano e Jorge Gonçalves terá cimentado definitivamente a sua posição no plantel. Apesar de Douglas teimar em não marcar, deu a marcar e trabalhou quanto baste no meio dos centrais, obrigando os mesmos a desdobrarem-se em trabalhos para suster as inúmeras tentativas de chegar ao golo por parte da turma da casa. Boa nota também para a exibição de Desmarets, que parece estar de volta à boa forma de outros tempos. Neste jogo, ficou patente que o Vitória tem matéria. Apesar de certos automatismos ainda não estarem convenientemente afinados, ficou á vista de todos que o Vitória tem, pelo menos, uma equipa mais equilibrada e coesa do que o ano passado, o que por si só legitima as nossas ambições a conseguir algo melhor do que o miserável 8º posto da época anterior.
Para que tal seja possível, é necessário que o Vitória encontre o seu “fio-de-jogo”. É preciso encontrar um modelo táctico que consiga encaixar as pedras que temos disponíveis no nosso Xadrez. É absolutamente necessário que os que por cá continuam imprimam ao grupo de trabalho a mentalidade vencedora necessária, pois só assim a integração dos reforços será proveitosa a curto ou médio prazo. Para tal irá contribuir certamente o elevado número de atletas portugueses no plantel. Aliando os mesmos ao número de jogadores da “cantera” de que dispomos, só por si um feito louvável, estou certo que rapidamente os novos reforços ficarão contagiados por este vírus benigno que continua a alastrar por terras de Vimaranes. Esperemos então que tal seja possível, para que em pouco tempo possamos ver o melhor de Lazzaretti (que já vem mostrando o porquê de ser namoro antigo), Tiago Alencar, Kamani, Rui Miguel, Mendieta e aquela que perece já ser a eterna promessa adiada, a vedeta do girabola, Santana Carlos.
Apesar dos aparentes maus resultados de início de época, quer-me parecer que teremos uma época mais regular do que anterior. Para que tal deixe de ser uma suposição e passe a ser uma verdade, é também necessário que a direcção do clube dê também margem de manobra suficiente á equipa, não entrando em veleidades que já cometeu no passado, do género de vender titulares indiscutíveis no mercado de inverno. É também preciso que a equipa técnica e respectivos jogadores tenham tranquilidade suficiente para se concentrarem apenas e só no futebol, sem estarem sujeitos a certos tipos de instabilidade directiva que caracterizaram o último exercício da actual direcção.
Se Emílio Macedo e seus pares tomarem consciência dos erros do passado e do preço que poderão vir a pagar em Março, certamente estarão cientes do caminho simples e discreto que até lá terão que percorrer. Convém também um certo decoro no que diz respeito a certas tomadas de posição, pois o futuro é incerto. Emílio Macedo tem que tomar consciência de que o seu futuro á frente do Vitória se encontra em xeque neste momento. Qualquer medida irreflectida ou inesperada poderá hipotecar completamente o trabalho de quem lhe suceder, dando-lhe também a velha desculpa de que “a culpa é de quem estava cá antes”. Por isso, vá andando com calma, Sr. Emílio. Lá para Março pode ser que já tenha tempo mais do que suficiente para se ocupar dos seus negócios, tão negligenciados (será mesmo assim?) por força das suas obrigações institucionais. Espero é que, ao menos, tenha salvaguardado o clube de continuar obrigado a cumprir com “protocóis” e de pagar salários milionários injustificáveis (e sabe-se lá que mais!) a funcionários escolhidos ou “encunhados” por si, cujas tarefas são de carácter pouco claro para não dizer duvidoso. Pode ser que assim se consiga poupar ao desgaste que a sua imagem já sofreu na cidade de Guimarães.
Gostaria também de deixar uma pequena consideração acerca da recente actuação de Pedro Xavier no que à tentativa de convocatória da A.G. extraordinária diz respeito. Estou certo que o senhor terá menosprezado a juventude dos associados de quem partiu a iniciativa. Contudo, com certeza tem a sensibilidade suficiente para chegar à conclusão que tal ímpeto nada mais é do que o crescente reflexo daquilo que vai na alma da generalidade do sócio Vitoriano. O facto de ter recusado a convocatória e ter recambiado as 140 assinaturas, mais do que suficientes à luz dos estatutos, constitui um grave atropelo aos valores supostamente democráticos que regem a vida desta grande colectividade. A sua obrigação era aceitar e deferir tal requerimento, mesmo não concordando com ele. Se está assim tão convicto das suas razões, concerteza teria oportunidade de tentar apaziguar os sócios em sede própria, na Assembleia Geral que ficou por marcar. Lá teria com toda a certeza a oportunidade de expôr o seu ponto de vista e apelar à calma dos sócios. O senhor tem todo o direito de aconselhar, mas também tem a obrigação de fazer com que neste clube se cumpram religiosamente os estatutos. Espero que até à próxima A.G. o senhor pense bem no que fez, sob pena de a generalidade dos sócios o condenar ao mesmo descrédito que já demonstraram em relação ao restante elenco directivo.
Em jeito de despedida, saúdo todos os leitores nesta recomeço de época, deixando a promessa de cá voltar todas as semanas para vos dar um “cheirinho” daquilo que, para mim, é sentir o Vitória.
Um abraço para todos e um cumprimento especial para os administradores do vitoria1922.com.
Até à próxima semana!
Guimarães, 17 de Setembro de 2009.
Manuel Aspinall
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