
Caros vitorianos, falar-vos-ei hoje do que passou fora das quatro linhas no jogo em Guimarães frente ao Benfica que, por variadíssimas razões, tardará a cair no esquecimento. No entanto, desenganem-se os que pensam que comentarei a esplendorosa atitude do nosso presidente ‘lambe botas’ e do comunicado emitido por quem lidera o nosso clube que é, no mínimo, ridículo. Não, esse assunto, que foi o tema de ordem durante toda a semana nas hostes vimaranenses e que profundamente ofendeu a família vitoriana, ainda fará ‘correr muita tinta’ – e não é para menos – pelo que vamos aguardar (im)pacientemente novos desenvolvimentos.
No entanto, venho dar o meu parecer relativamente a um tema mais que debatido mas que me apoquenta e entristece profundamente. Pensava eu – inocentemente – que éramos maioritariamente um povo digno e com valores e que a imagem antiga de que os adeptos vitorianos eram ‘arruaceiros’ já não se aplicaria. Todavia, continuam a ser deploráveis as cenas de violência a que se assiste findo um jogo de futebol que mais não deveria ser do que uma festa. Sim, porque o futebol é uma festa ou, pelo menos, deveria sê-lo.
O que é certo é que, no final do jogo com o Benfica, muitos foram os aficionados do clube do milhafre que foram incompreensível agredidos por alguns covardes que desatavam – permitam-me a expressão – ‘ao murro e ao pontapé’ em tudo o que de vermelho mexesse.
Assisti incredulamente a momentos de violência, em plena avenida de Londres, indecentes e vergonhosos. Felizmente ainda existem cidadãos (no real sentido da palavra) que tentavam a todo o custo amainar a situação, separando e repudiando a atitude dos agressores.
Estes indivíduos que ‘batem e escondem a mão’ são, provavelmente, pessoas (com comportamentos animalescos) que não medem as consequências dos seus actos. Acredito piamente que estes desconhecidos nem sequer irão aos jogos fora e que provavelmente não sabem que atitudes deste género implicam muitas vezes ‘vingança’.
E depois, como é sabido, ‘paga o justo pelo pecador’.
Ora, não se pode já vestir a camisola do clube pelo qual se torce? Quantas vezes não fazemos isso? Aliás, nós vitorianos representamos e fazemos jus ao símbolo do Rei em qualquer parte do planeta… Todavia, longe de mim simpatizar com qualquer outro clube porque vitoriano que se diz verdadeiramente vitoriano só o Vitória lhe interessa e não tem ‘costelinhas emprestadas’.
Mas o respeito pelo próximo é algo que sempre esteve na base da minha existência e toda a vida ouvi, vezes sem conta, a minha querida mãe interrogar: ‘O que seria do amarelo se tudo fosse azul?’.
Além disso, se bem estudei nas aulas de Filosofia, a Declaração Universal dos Direitos do Homem (aprovada após a II Guerra Mundial) consagrou, no plano global, um conjunto de valores essenciais, assumidos como universais e que devem ser reconhecidos a todos os indivíduos, independentemente da raça, nacionalidade, sexo, idade, religião ou condição social – e na minha opinião, talvez se justificasse acrescentar ‘e clube de futebol’. São eles: a Pessoa como valor em si; a Dignidade humana; a Liberdade; a Igualdade e a Fraternidade/Solidariedade.
Assim sendo, eu questiono-me sobre quantos destes direitos são frequentemente violados por tais actos infames.
A crítica abrange toda e qualquer forma de violência, não se limitando apenas ao futebol. O facto da época em Guimarães ter começado de um modo pouco ajustado, no que a este tema diz respeito, apenas me suscitou alguma revolta e vontade de a partilhar. Como é óbvio estende-se a todos nós, particularmente aos amantes do futebol, que podem ver a sua integridade física comprometida sem motivo ou razão aparente.As forças de segurança não são omniscientes nem omnipresentes e não podem ser culpadas de tudo. Por mais policiamento que haja, por mais que os clubes invistam, enquanto não se mudarem mentalidades continuaremos permanentemente em risco.
Haja civismo, haja cidadania!
Em jeito de reflexão, termino com uma frase de Augusto Cury:
“Violência gera violência, os fracos julgam e condenam, porém os fortes perdoam e compreendem”.
A citação é de fácil interpretação e de um modo mais simples e divertido pode ajustar-se a todos nós na medida em que devemos ‘dar um desconto’ a quem não for do Vitória.
Ana Machado
PS: pedimos desculpas por só agora ser publicado este artigo,mas só agora nos foi possível colocar no site.
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