Ano de 1996… um Setembro quente…
Quinze dias antes, na cidade dos produtos lactícinios italianos, o Vitória, o nosso Vitória havia-nos enchido de orgulho… efectivamente, vender tão cara a derrota perante o então colosso italiano não era para qualquer um…e aquele golinho de Gilmar podia dar-nos asas ao sonho…ao sonho de na Europa todos saberem que em Guimarães havia uma equipa, que apesar de não ter muito dinheiro, tinha alma e determinação!
Como já dito, um dia quente… e esperança, muita esperança entre nós adetos do clube do Rei… ainda, para mais, diz-se que o guarda redes Bucci não joga…será substituido por um menino de 17 anos que fará a sua estreia…Gianluigi Buffon, o nome diz-lhes alguma coisa?? Fosse hoje, e a esperança de na baliza estar Buffon, transformar-se-ia em terror…
mas o Parma, os “giallloblu” como são conhecidos em Itália, até para lá do velhinho e decadente Ennio Tardini eram mais que isso… eram Cannavaro, Sensini, Dino Baggio, Zola, Daniel Bravo, Amaral – sim, o do Benfica-, Enrico Chiesa, Lilian Thuram, entre outras estrelas…
Além destes, outra estrela pisou o Afonso Henriques: o famigerado árbitro gaulês Marc Batta, que tempos depois havia de ser acusado de ter estragado o sonho luso de se apurar para o Mundial 98, ao expulsar Rui Costa de forma injustificada.
Estádio bem composto, com todos os corações vitorianos a palpitar um por um sonho lindo…
Início do jogo, euilibrado…surpreendentemente equilibrado… o Vitória olha bem olhos nos olhos do papão… também para quem contava com homens da estirpe de Neno, Arley, Alexandre – há quem jure que nunca viram um defesa central fazer uma exibição tão impoluta e majestosa – Gilmar, Riva, Capucho, José Carlos, e os demais não podia deixar de lutar…
Até que subitamente todo este equilíbrio se esmorece…lance confuso a meio da intermédia parmegiana, um lance dividido que parece que facilmente vai ser controlado pelo último reduto transalpino, mas em, que,subitamente, Paneira se interpõe e se isola…
Bruás de esperança no Afonso Henrique…eis a oportunidade de materializar as nossas sensações oníricas… de dar um passo rumo à história…
E como foram longos aqueles segundos em que Paneira correu em direcção à baliza… mas os heróis não tremem e perante o menino Buffon – que neste jogo ainda não tinha nenhuma musa de nome Alena Seredova e tremia como varas verdes – picou-lhe a bola,s uperiormente, como que a exigir respeito pelos mais velhos…
Estádio em delírio…em ebulição…só quem nunca viu o nosso Afonso Henriques a fervilhar não entenderá o que escrevo…os Insane a cantar…. os fumos brancos a sobrevoar o recinto de jogo abraçando-o em cores alvas… o pigmeu já acertara no gigante!!
Todavia, esta história cujo climax em conto de fadas já se vislumbra, teve o seu momento dramático bem perto do intervalo…há quem me jure que nunca viu esse lance pois a RTP não transmitiu o jogo – outros tempos, mesmos critérios – a Eurosport só deu os golos e esses que juram a essa hora já estavam no bar a preparar-se para saborear um cervejinha – ainda com álcool, na altura – bem geladinha para o grito Vitória ser bem sincronizado…
Então foi assim, para quem não viu: Dino Baggio foge pela direita do seu ataque, deixa Quim Berto atrasado e centra para o segundo poste, onde aparece Zola com Neno já batido… Como a bola não entrou com o remate do mago transalpino isso ninguém sabe…nem hoje decerto o próprio saberá, mas quem acompanhou a carreira do pequeno mágico nascido na Sardenha, saberá que ele nunca, mas nunca, falhou um golo assim…de baliza escancarada, qual mulher a pedir amor, para posteriormente o ver negado…
Intervalo com suores frios…faltam ainda uns longos 45 minutos e aquela oportunidade, mostra que o clube patrocinado na altura pelo portentado dos lacticínios, esse famigerada e posteriormente escandalosa “Parmalat” estava sedento de limpar o orgulho e não perder em Setembro a hipótese de vencer a Taça UEFA…
Só que surpresa das surpresas..que grande segunda parte o nosso Vitória fez, manietando totalmente o Parma…o colosso, como se costuma dizer “nem cheirou”… e as oportunidades no contra atarque sucediam-se perante um atemorizado e atarantado Buffon…
Marc Batta ainda teve um acesso do seu anti-lisitanismo, quiçá a indicar, o que uns anos depois faria a Rui Costa e anulou um golo limpo, como a água, a Ricardo Lopes… mas o mesmo bem no fim do fogo, haveria de selar uma das mais bela spáginas da história vitoriana com uma cabeçada em habilidade que, aquele Buffon, não pôde deter…digo aquele, pois se fosse o actual, não duvidem… que era homem para defender aquela bola…mas com dezssete anos a fazer a sua estreia…
Os últimos minutos acho que ninguém mais se lembra…só se olhava para o relógio…o Parma quiçá aturdido com tudo que lhe acontecera queria mas não podia…o Vitória, agora queria defender e podia…defendia com unhas e dentes com uma dulpa majestosa que fez, talvez, o jogo de uma carreira… Arley, o homem que era especialista nos livres mas que nunca marcou um golo e Alexandre, o homem das atribulações psicológicas, foram grandes, gigantes…mas os outros jogadores de Rei ao peito também…
Até que..apito final, sendo que monsieur Batta protelou esse momento exageradamente…talvez o habitual servilismo a quem já e grande… Mas êxtase colectivo, um orgasmo psicológico de 15.000 vitorianos que viram o que muitos julgavam impossível acontecer… quem sabe, como agora, com o debutar na Champions…
Refira-se que o Parma nessa época só não foi campeão devido a um grande Milan…mas conseguiu o segundo lugar e apurou-se pela primeira vez para a Champions league… mas aquele jogo em Guimarães travou a Ancelotti e seus pares o sonho de uma época perfeita…
Quanto ao Vitória ficou em 5º, classificando-se novamente para a UEFA… todavia, após, o Parma haveria de cair, com muito azar, perante os belgas do Anderlecht… mas isso já são outras contas…ou conmo diria o outro, outra história!!
Vasco Rodrigues
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