Nos tempos conturbados que vivemos, a palavra “crise” é uma constante. Sinceramente vos digo que já não me lembro de ligar a televisão ou a rádio sem ouvir este termo pronunciado vezes sem conta nos noticiários.
Normalmente, estes cenários são previsíveis e passíveis de serem antecipados, proporcionando aos agentes envolvidos alguma margem de manobra para debater e efectivar medidas que, mesmo que não consigam travar a espiral de queda, ao menos sejam capazes de a suster por mais algum tempo. Isto acontece em circunstâncias normais. Contudo, e como diziam os antigos, há sempre excepções à regra.
Infelizmente, aquilo que se passa com o Vitória constitui, a meu ver, uma excepção. Se me permitem, passarei a explicar a minha visão dos acontecimentos.
Após um ano desportivo recheado de sucessos a todos os níveis, todos os sócios, adeptos e simpatizantes esperavam que esta época servisse para consolidar, de forma efectiva e sólida, esse crescimento exponencial do qual o nosso clube foi protagonista. Afinal, não é todos os dias que se fica em terceiro lugar da Liga de Futebol, que se é Campeão Nacional de Voleibol e, decididamente, ganhar uma Taça de Portugal em Basquetebol ao F.C. Porto não é para qualquer um.
A conjuntura geral era-nos extremamente favorável, sendo apenas necessário manter em alta a moral dos atletas e fazer algum (pequeno) esforço para investir de forma sustentada no crescimento do clube.
Ao contrário do que seria de supor, tal não aconteceu no caso do Vitória Sport Clube, sendo que os acontecimentos tomaram um rumo completamente inverso ao que seria de esperar.
Além da saída de cena de jogadores preponderantes no esquema táctico da equipa, ainda assistimos a um processo de reforço do plantel que, por força do mau planeamento e de outros fait-divers , se revelou atabalhoado, feito “encima do joelho” e cheio de precalços e novelas. Infelizmente, as diferenças entre esta época e a sua antecessora estão à vista de todos. É um facto que perdemos eficácia, velocidade e poder de antecipação na defesa com a saída de Geromel e, mais tarde, com a lesão de Sereno, sendo que hoje em dia nada resta da fantástica dupla de centrais de dispúnhamos no ano passado. No sector intermédio, as saídas de Ghilas e Alan sentem-se profundamente, e não só no que à ausência destes diz respeito. Com esta “debandada”, ficaram expostas as debilidades de um meio-campo que não possui um “arquitecto” que tenha capacidade para fazer o esboço táctico do jogo, quanto mais levá-lo avante, o que automaticamente reduz a escombros as possibilidades de João Alves e Flávio tinham de desenvolver o jogo pelo “miolo”. É um ponto assente. Não há, no Vitória deste ano, quem tenha a coragem, a garra, a velocidade e técnica suficientes para colocar o esférico ao dispôr dos finalizadores, que de resto, desde a lesão de Douglas, puseram a nu a sua mediocridade. Digam o que disserem, Roberto, infelizmente, não é suficientemente bom para ser o ponta-de-lança titular de uma equipa de Primeira Liga, quanto mais de um Vitória que se exigia imponente e eficaz para fazer face aos novos desafios que esta época antevia. Posso até concordar com aqueles que defendem a dupla Roberto – Douglas, contudo, está à vista de todos que na ausência de Douglas, o Vitória perde o pouco poder de fogo que possuía.
A juntar a este cenário pouco favorável, o recrutamento dos reforços parece ter sido feito à distância e sem qualquer tipo de critério inteligível. Quando era suposto manter uma estrutura base e, através do reforço do plantel, acrescentar mais alguma qualidade, verifica-se precisamente o inverso, indo de encontro à ideia já expressa em crónicas passadas de que foi posta em marcha uma autêntica “política de desinvestimento”. Grégory é um central que possui algumas qualidades, no entanto, a sua acção é quase nula para a equipa quando se vê órfão de um colega que possa suster com rapidez e antecipação o jogo ofensivo do adversário. Acompanhado por Sereno, concerteza veríamos um file diferente mas, por força das evidências, Sereno é carta fora do baralho, sendo apenas de esperar um regresso a bom nível lá para Março, a meia dúzia de jornadas do fim. Num meio campo que, por força das saídas, seria necessário reforçar com jogadores rápidos e técnica e tacticamente esclarecidos, assistimos à entrada de um Wênio que, apesar da dureza e do empenho, não acrescenta nada de novo, limitando-se a reforçar o já grande contingente de médios defensivos de que dispomos. Jean Coral, por seu lado, parece caído de “pára-quedas” em Guimarães. Para ajudar a adensar ainda mais a escuridão deste cenário, os dois “salvadores” oriundos da segunda circular apresentam-se em Guimarães no fim da pré-temporada, física e animicamente débeis.
O resultado desta receita “Pantagruélica”está ao alcance da vista de todos.
Se os presságios dos adeptos já não eram os melhores, com o “turbilhão” de acontecimentos em que esta direcção se viu envolvida, o cenário só se torna ainda mais negro. Ao invés da luta pela crescente integridade e independência do clube, preferiram os nossos dirigentes associar-se em vassalagem àqueles que, por força da classificação da época anterior, nos querem a todo o custo derrubar, olvidando ingenuamente a sabedoria ancestral que demonstra que “mais vale estar só do que mal acompanhado”. A coesão dentro do elenco directivo está, também ela, visivelmente afectada, como demonstra a saída inexplicável de cena de Paulo Pereira e, mais tardiamente, o triste episódio protagonizado pelo Presidente e o seu “Vice”, aquando da visita ao inóspito e hostil Estádio do Dragão. Neste episódio em particular, ficou patente a falta de personalidade e de carácter dos dirigentes, ao aceitar quase que naturalmente a humilhação a que foram sujeitos.
No que concerne ao péssimo planeamento desta temporada, deve a direcção assumir as suas responsabilidades, quer seja retratando-se e assumindo os seus erros ou então esclarecer os adeptos e apontar o dedo acusador a quem de direito. O silêncio a que nos votaram só me faz acreditar que não existe coragem para assumir os erros cometidos, numa tentativa clara de esperar que o baixo rendimento desportivo motive um despedimento, logo, a aparição de um “bode espiatório” que possa arcar com todas as culpas, inclusivamente as dos dirigentes.
A equipa coesa e compacta que por cá morava na época passada, virou uma manta de retalhos que não consegue sequer fazer sombra à sua antecessora. No entanto, ainda há tempo e oportunidade para tentar remediar o que de mal se fez, sem que seja necessário recorrer a uma “chicotada” que pecaria por imponderada e injusta. A ver vamos se com a reabertura do mercado, e para além dos jogadores necessários para colmatar as nossas carências, se compra também o tal juízo de que tanto se falou no defeso. Só que até neste ponto a direcção já falhou por antecipação. O tipo de reforço que necessitamos será bastante dispendioso, o que levará a que a extrema contenção da pré-época se transforme num encargo extra em Janeiro, agravando ainda mais o já grande passivo do Clube.
Será que vai sobrar dinheiro para piscinas e pavilhões? Depende do empreiteiro a quem for adjudicada a obra…
Finalmente, gostaria de endereçar o meu apreço aos atletas e técnicos que este fim-de-semana, mais uma vez, engrandeceram o nosso símbolo , ao conquistar a glória do Ouro. Todos estão de parabéns, e todos são o orgulho da família vitoriana
Manuel Aspinall
Guimarães, 3 de Dezembro de 2008
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Dezembro 11th, 2008as 20:42
Caro Manuel,
Com o resultado frente ao Leixões, esperemos que a crise tenha terminado! Pelo menos no Vitória…
Dezembro 13th, 2008as 18:43
Boa tarde Caro Manuel Aspinall,
Este comentário serve apenas para transmitir-lhe a profunda admiração que tenho por si e pelas suas crónicas. Sempre “atacando” os pontos fulcrais das questões mais actuais. Que continuemos a poder ler suas crónicas durante muito tempo!Os meus mais sinceros Parabéns!
Cumprimentos,
Mário Rui Rôxo